
Teologia
O Pentecostes samaritano
Um estudo de Atos 8:4–24 sobre a expansão do evangelho em Samaria, a conversão dos samaritanos e o derramamento do Espírito Santo.
Teologia
O Pentecostes samaritano
Um estudo de Atos 8:4–24 sobre a expansão do evangelho em Samaria, a conversão dos samaritanos e o derramamento do Espírito Santo.
18 min de leituraIntrodução
Atos 8 mostra o ministério de Filipe em Samaria e o contexto de perseguição que preparou o terreno para esse ministério. A perseguição que assolava a igreja primitiva não era brincadeira; Estêvão acabara de ser morto, e Saulo estava determinado a impedir o avanço dos seguidores de Jesus. Nesse contexto, Filipe teve de deixar Jerusalém, mas, como veremos, permaneceu fiel e desenvolveu um trabalho evangelístico em Samaria e nas regiões ao redor.
Lucas descreve uma grande perseguição levantada contra a igreja em Jerusalém depois da morte de Estêvão e menciona que todos foram dispersos, exceto os apóstolos. Evidentemente, a perseguição não alcançou seu objetivo de suprimir a mensagem de Jesus. Observe como Lucas relaciona “os que foram dispersos” (isto é, a igreja) ao início de um ministério fora da região da Judeia.
“A oposição não interrompe o trabalho missionário dos seguidores de Jesus, mas os leva a se deslocarem para regiões e cidades nas quais o evangelho de Jesus Cristo ainda não havia sido proclamado.” 1
A dispersão, porém, não foi um acidente de percurso. Antes de subir aos céus, Jesus dissera aos apóstolos, em Atos 1:8, que eles seriam suas testemunhas “tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra”.
Esse é o contexto do versículo 4: os que foram dispersos depois da grande perseguição (8:1) “iam por toda parte pregando a palavra” (8:4). Um deles é Filipe, um dos sete homens escolhidos para servir às mesas. Podemos dividir seu ministério em Samaria em quatro seções:
- Proclamação do evangelho entre os samaritanos (8:5-8)
- A conversão dos samaritanos (8:9-13)
- O derramamento do Espírito Santo sobre os samaritanos (8:14-17)
- Simão e a repreensão de Pedro (8:18-24)
Veremos como Filipe e a igreja reagiram à perseguição e como o plano de Deus para o avanço missionário além da Judeia e de Jerusalém se cumpriu apesar dela — e não por causa dela.
Proclamação do evangelho entre os samaritanos (8:5-8)
Filipe desceu a Samaria e lhes proclamou Cristo (8:5). Não sabemos exatamente a qual cidade Filipe foi: Lucas está situando o ministério dele no distrito de Samaria, e não necessariamente na capital. 2
Os samaritanos não eram bem-vistos pelos judeus. Entre outras coisas, dizia-se que comer com um samaritano era como comer carne de porco; eles eram acusados de abortar fetos, e suas filhas eram consideradas impuras. 3 Vale notar que boa parte desse material vem de fontes rabínicas posteriores ao primeiro século, ainda assim, ele reflete uma hostilidade real e antiga, que os Evangelhos também atestam (João 4:9; Lucas 9:52-53).
A primeira comunidade alcançada pelas boas-novas do evangelho não era a favorita dos judeus. Isso é muito significativo, não pelo simples fato das hostilidades entre judeus e samaritanos, mas porque o plano de Deus desde o princípio era ampliar o alcance do evangelho e da salvação a todas as nações (Atos 1:8) e, nesse aspecto, a preferência dos judeus não era relevante.
Lucas diz que Filipe lhes proclamou “o Cristo”. Os samaritanos aceitavam apenas o Pentateuco e esperavam não um filho de Davi, mas o “Taheb” — termo que significa “Restaurador” ou “Aquele que Retorna”, um profeta semelhante a Moisés, conforme Deuteronômio 18:15-18. Havia uma expectativa errada, que precisava ser corrigida pela pregação de Filipe.
Os samaritanos foram receptivos à palavra de Deus: prestaram muita atenção à pregação de Filipe (8:6) e foram beneficiados por sinais e maravilhas (8:7), o que resultou em “grande alegria” (8:8). Lucas fala de uma multidão que viu diversos milagres: pessoas foram libertas de espíritos imundos (isto é, demônios), e pessoas paralíticas ou coxas foram curadas. Os gritos dos espíritos malignos, mencionados também em outros lugares (por exemplo, Lucas 4:41), tornavam os exorcismos publicamente perceptíveis.
Como resultado daqueles milagres e do alívio experimentado por muitas pessoas, houve “grande alegria” na cidade e também conversoes como fica claro no restante do texto, especialmente em 8:12.
Uma importante lição deste texto é que nada poderia impedir que a mensagem do evangelho se espalhe: nem a grande perseguição, nem a aversão dos judeus aos samaritanos, nem mesmo as forças do mal! Isso ecoa a promessa que o próprio Senhor havia feito: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16:18).
A conversão dos samaritanos (8:9-13)
Lucas agora apresenta ao leitor Simão, o mágico (8:9). Simão praticava magia e estava acostumado a maravilhar as pessoas com seus feitos. Ele se apresentava como alguém “grande”. Os samaritanos lhe davam atenção e o reconheciam como alguém grande, dizendo: “Este homem é o poder de Deus, chamado o Grande Poder” (8:10). Lucas nos diz que os samaritanos lhe davam atenção porque ele os maravilhara com sua magia durante muito tempo (8:11).
O termo traduzido como “magia” em 8:11 denota “ritos que normalmente empregam encantamentos destinados a influenciar ou controlar poderes transcendentes”. 4 No vocabulário de hoje, seria mais bem descrito como “feitiçaria, ocultismo”. Não há razão para acreditar que a “magia” aqui fosse apenas ilusionismo, como tendemos a pensar em “mágica” hoje, no sentido de truques ilusórios.
Em Atos 13:6-11, Paulo repreende outro mago, Elimas, e o chama de “filho do Diabo”. A lei mosaica proibia explicitamente todas as formas de magia (Êxodo 22:18). Havia também uma influência significativa de espíritos malignos na cidade, portanto, embora Lucas não diga o que Simão conseguia realizar com sua magia, é muito provável que ele estivesse envolvido com o “ocultismo”.
Justino Mártir, que era da região de Samaria, afirma que Simão declarou ser “deus acima de todo poder, autoridade e força” (Diálogo com Trifo 120.6), que “era considerado um deus” e que os samaritanos “confessam este homem como seu primeiro deus” (Primeira Apologia 26). 5
Os dois versículos seguintes confirmam a reação positiva dos samaritanos; eles não apenas deram atenção a Filipe, mas também creram em sua mensagem (8:12a). Em que creram? Qual era a mensagem de Filipe? A mensagem de Filipe consistia nas boas-novas a respeito do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo (8:12b). A resposta positiva leva ao batismo (8:12c), que é uma expressão de arrependimento e de pertencimento à comunidade da igreja. Lucas relata que até o próprio Simão abraçou a fé e se batizou (8:13a), ficando maravilhado com os sinais e grandes milagres que via (8:13b).
É interessante que Lucas descreva Simão de maneira tão vívida depois de apresentar a reação dos samaritanos à pregação e aos milagres de Filipe. Lucas quer destacar a mudança que estava acontecendo. Os samaritanos estão deixando de louvar um falso deus envolvido com espíritos malignos para dar atenção à pregação de Filipe, que anunciava o Deus verdadeiro e libertava as pessoas de espíritos malignos!
Os samaritanos estavam mortos em seus pecados, exatamente como Efésios 2 descreve.
Efésios 2:1-3 — “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais.”
Os samaritanos, que estavam presos a um falso deus em uma cidade influenciada por espíritos malignos, agora fazem parte de uma cidade celestial, membros do reino de Deus, o Deus verdadeiro!
Os samaritanos convertidos já não estavam mortos em seus delitos e pecados. Deus, em sua misericórdia e por seu grande amor, lhes deu vida!
Efésios 2:4-5 — “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo — pela graça sois salvos.”
O derramamento do Espírito Santo sobre os samaritanos (8:14-17)
A igreja em Jerusalém ouviu falar da conversão dos samaritanos e decidiu enviar Pedro e João a Samaria (8:14). A expressão “receberam a palavra de Deus” indica que o relato recebido considerava genuínas aquelas conversões. É possível que o mesmo relato indicasse que os samaritanos ainda não haviam recebido o Espírito Santo e que, por isso, a igreja decidiu enviar Pedro e João.
Lucas não diz por que Pedro e João foram a Samaria, mas o fato de a igreja tê-los enviado indica que aquele acontecimento era crucial para a expansão do trabalho missionário da igreja. Os apóstolos entenderam que era importante enviar um grupo a Samaria.
Os dois versículos seguintes (8:15-16) descrevem os apóstolos orando pelos samaritanos para que recebessem o Espírito Santo. Eles oraram porque o Espírito ainda não havia descido sobre nenhum deles (8:16a), pois “tinham sido somente batizados em nome do Senhor Jesus” (8:16b). Uma pergunta comum é por que houve um atraso, um intervalo entre a conversão e o recebimento do Espírito Santo.
Alguns argumentariam que os samaritanos não creram em 8:12 e que só vieram a crer depois que os apóstolos chegaram e oraram por eles. Contudo, isso não se sustenta, pois o texto afirma múltiplas vezes que eles creram e foram batizados. Quando Pedro e João chegaram, oraram especificamente para que eles recebessem o Espírito Santo e não lhes explicaram o evangelho outra vez.
Observe a expressão “não havia ainda” em 8:16, isso pode sugerir que Lucas e seus leitores esperavam que o recebimento do Espírito acompanhasse naturalmente o arrependimento e a salvação. Assim, devido ao caráter extraordinário daqueles acontecimentos, Lucas observa que o Espírito “não havia ainda” descido sobre eles antes de Pedro e João lhes imporem as mãos.
Aqui é preciso cuidado, porque esse texto é frequentemente usado para sustentar que existe um estágio normal da vida cristã em que a pessoa já creu, mas ainda não recebeu o Espírito. Paulo elimina completamente essa possibilidade: “[…] se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Romanos 8:9). Não existe crente sem o Espírito Santo. O que aconteceu aqui foi algo específico do período de transição.
A melhor evidência disso é o próprio padrão do livro de Atos. O derramamento do Espírito acompanha exatamente as etapas de Atos 1:8, e em cada nova fronteira há apóstolos presentes:
- Atos 2 — os judeus, em Jerusalém, com os apóstolos presentes.
- Atos 8 — os samaritanos, com Pedro e João enviados de Jerusalém.
- Atos 10 — os gentios, na casa de Cornélio, com Pedro presente.
- Atos 19 — os discípulos de João Batista, em Éfeso, com Paulo presente.
Depois que cada grupo é incorporado, o padrão não se repete: o restante do Novo Testamento trata o recebimento do Espírito como simultâneo à conversão. É por isso que Atos 8 é frequentemente chamado de “o Pentecostes samaritano”. Assim como em Atos 2 o Espírito foi derramado sobre os judeus crentes reunidos em Jerusalém, aqui ele é derramado sobre um grupo inteiro de samaritanos crentes, e pelas mesmas razões: marcar publicamente a inclusão de um novo povo no corpo de Cristo. (Para um estudo do episódio de Atos 2, veja Um estudo sobre Pentecoste.)
Por isso, entendo que a ida de Pedro e João se fez necessária tanto pelo caráter de expansão da igreja a partir de Jerusalém quanto porque cada nova etapa de Atos 1:8 precisava de testemunho apostólico. A presença de Pedro e João e a experiência do derramamento do Espírito Santo serviram para autenticar a inclusão dos samaritanos convertidos no corpo de Cristo.
O texto também sugere que houve alguma manifestação perceptível. Lucas diz que Simão “viu” que o Espírito era dado pela imposição das mãos dos apóstolos (8:18); havia, portanto, algo observável, e não apenas uma convicção interior. Lucas não especifica o que era, mas, à luz de Atos 2, 10 e 19 — onde o falar em línguas acompanha o derramamento em cada nova etapa, é bem provável que fosse o mesmo sinal.
A conversão dos samaritanos é particularmente significativa para o avanço do evangelho, pois, pela primeira vez, ele alcança pessoas que não eram inequivocamente membros do povo de Israel. O derramamento do Espírito Santo sobre os samaritanos também revela um acontecimento coletivo; isto é, o batismo no Espírito Santo agora havia sido estendido a eles e, pela primeira vez, a pessoas que não faziam parte de Israel em sentido estrito. Portanto, o “atraso” do Espírito Santo foi algo extraordinário e aconteceu apenas durante o “período de transição”.
“As duas etapas da manifestação do Espírito fazem parte do contexto incomum da cena, na qual a igreja está desbravando um novo terreno; por isso, uma confirmação e uma afirmação são registradas de uma maneira que não constitui um paradigma para a prática posterior.” 6
Simão e a repreensão de Pedro (8:18-24)
Lucas relatou que “até” o próprio Simão creu e foi batizado (8:13a). Há uma discussão considerável sobre se Simão realmente creu, visto que ofereceu dinheiro em troca da capacidade de conferir o Espírito Santo (8:18-19).
Não é difícil imaginar por que ele desejaria aquele poder, pois afirmava realizar coisas miraculosas e queria ser visto como Deus.
A pergunta é: Lucas pretende realçar ainda mais o poder do evangelho ao relatar a conversão do homem que exercia uma influência negativa sobre os samaritanos, ou pretende destacar que Simão estava interessado apenas no poder dos apóstolos para contrastar com a pregação de Filipe? A resposta a essa pergunta dependerá de como se interpretam a repreensão de Pedro e a resposta de Simão.
Entre os que defendem que Simão de fato creu, argumenta-se que Lucas afirma que ele creu e foi batizado; se Lucas quisesse retratá-lo como alguém que não creu, por que descreveria sua fé e seu batismo com os mesmos verbos usados para os samaritanos? Em segundo lugar, desde Atos 2, a prática da igreja em Jerusalém era batizar aqueles que aceitavam a mensagem sobre o arrependimento e a necessidade da fé em Jesus. Portanto, Filipe não considerava ilegítima a fé de Simão. Caso contrário, não o teria batizado.
O argumento é sério, mas a resposta está no próprio Lucas. Na parábola dos solos, Lucas registra pessoas que “creem por algum tempo e, na hora da provação, se desviam” (Lucas 8:13) — usando exatamente o mesmo verbo. Para Lucas, portanto, dizer que alguém “creu” não decide, por si só, a questão da fé salvadora.
Atos 8:20-23 — “Mas Pedro lhe disse: O teu dinheiro seja contigo para perdição, porque julgaste adquirir com dinheiro o dom de Deus. Tu não tens parte nem sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te, pois, dessa tua maldade e roga ao Senhor; talvez te seja perdoado o pensamento do teu coração. Pois vejo que estás em fel de amargura e laço de iniquidade.”
Cada frase é mais dura que a anterior:
- “O teu dinheiro seja contigo para perdição” (8:20). A palavra traduzida por “perdição” é o termo que o Novo Testamento emprega para a destruição eterna. Pedro não está dizendo apenas que o dinheiro de Simão foi mal empregado, mas ligando o destino do dinheiro ao destino do homem.
- “Não tens parte nem sorte neste ministério” (8:21a). A expressão ecoa a linguagem do Antigo Testamento sobre não ter herança entre o povo de Deus (Deuteronômio 12:12; 14:27). Simão está de fora.
- “O teu coração não é reto diante de Deus” (8:21b). Pedro aponta para o coração de Simão e deixa claro que não vê um coração regenerado.
A resposta de Simão aponta ainda mais para a sua falsa conversão. Pedro lhe ordena: “Arrepende-te […] e roga ao Senhor” (8:22). Simão não faz nem uma coisa nem outra. Em vez de se arrepender e clamar ele mesmo a Deus, responde: “Rogai vós por mim ao Senhor, para que nada do que dissestes venha sobre mim” (8:24). Ele não busca perdão, simão busca escapar das consequências, e ainda assim por procuração. Como destaca o Pr. David Melin, esse é o comportamento de quem teme o castigo, não de quem detesta o próprio pecado. 7
Por esses motivos, entendo que Simão não experimentou uma conversão genuína e que, na verdade, tinha motivos escusos na prática religiosa.
O motivo que Lucas dedica um trecho considerável a Simão é que um contraste fica muito claro aqui:
- Filipe apontava para Deus, e Simão apontava para si mesmo.
- Ambos impressionaram a multidão: Simão, mediante charlatanismo e muito provavelmente sob influência de poder demoníaco; Filipe, mediante sinais e maravilhas realizados pelo poder divino. Simão enganava; Filipe anunciava a verdade do evangelho.
- As pessoas ficaram maravilhadas com a magia de Simão, mas só foram salvas por meio do poder do Espírito Santo.
Esse é o poder do evangelho: o poder das boas-novas a respeito de Jesus e do reino de Deus. A graça de Deus salvou os samaritanos, ao passo que a “grandeza” de Simão os teria conduzido diretamente à condenação eterna.
Aplicações
O evangelho atravessa as hostilidades que julgamos intransponíveis
A primeira comunidade a receber o evangelho fora de Jerusalém foi justamente a que os judeus mais desprezavam.
E repare em quem foi enviado para impor as mãos sobre eles. João é o mesmo discípulo que, poucos anos antes, diante da recusa de uma aldeia samaritana em receber Jesus, perguntou: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir?” (Lucas 9:54). O homem que quisera ver Samaria queimada agora ora para que Samaria receba o Espírito Santo. O evangelho não transformou apenas os samaritanos; transformou também o apóstolo que os detestava.
O evangelho não faz acepção de pessoas, grupos ou nações.
Deus pode usar até a oposição para expandir a sua obra
A grande perseguição que se levantou contra a igreja depois da morte de Estêvão foi, sem dúvida, um mal real: Saulo assolava a igreja, entrando de casa em casa, arrastando homens e mulheres para a prisão. Ninguém ali estava orando para que aquilo acontecesse. E, no entanto, foi exatamente essa dispersão forçada que levou Filipe a Samaria e resultou na primeira expansão do evangelho para além dos limites étnicos de Israel.
Isso não significa que a perseguição seja boa em si mesma, nem que devemos buscar sofrimento. Significa que a soberania de Deus opera até por meio daquilo que os homens planejam para o mal. O que Saulo pretendia como uma arma para destruir a igreja, Deus usou como o mecanismo exato para espalhá-la.
Nem todo poder espiritual vem de Deus
Simão fascinou os samaritanos durante anos com sua magia, a ponto de ser chamado “o Grande Poder de Deus”. As pessoas ficavam maravilhadas. O contraste entre Simão e Filipe não é apenas uma curiosidade histórica: Satanás está agindo neste mundo para enganar as pessoas, e ele usa pessoas como Simão.
O texto, porém, não nos deixa apenas com o alerta; ele nos dá o critério. A diferença entre Filipe e Simão não estava no tamanho do espanto que produziam, pois ambos produziam espanto. Estava em para quem apontavam. Filipe pregava “o reino de Deus e o nome de Jesus Cristo” (8:12); Simão dizia de si mesmo “ser alguém grande” (8:9). Poder que impressiona não significa ser poder divino. A pergunta a se fazer diante de qualquer manifestação espiritual não é “isto é impressionante?”, mas “de quem se fala aqui?”.
Vale notar também que o evangelho não libertou os samaritanos apenas da magia de Simão, mas igualmente de uma expectativa messiânica errada. Eles esperavam o Taheb e receberam a Cristo, o messias verdadeiro. Deus liberta tanto do ocultismo declarado quanto da teologia sinceramente equivocada.
Nem todas as confissões de fé são conversões verdadeiras
Como a história de Simão ilustra, nem todas as confissões de fé são conversões genuínas. As pessoas podem confessar sua fé e até mesmo ser batizadas, mas ainda assim é possível que essa fé não seja autêntica.
Isso deveria produzir duas reações em nós, e não apenas uma. A primeira é o autoexame: A nossa vida demonstra uma conversão verdadeira?. A segunda é a realidade de pessoas que professam fé na igreja mas que não possuem uma fé verdadeira: se nem Filipe distinguiu o falso do verdadeiro, não devemos nos surpreender quando isso acontecer entre nós, nem concluir que o evangelho falhou.
Notas
-
Eckhard J. Schnabel, Acts, Expanded Digital Edition, Zondervan Exegetical Commentary on the New Testament (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2012), 399. ↩
-
O texto grego diz “[a] cidade de Samaria”, e os manuscritos divergem quanto à presença do artigo definido antes de “cidade”. Mesmo onde o artigo aparece, a expressão pode significar apenas “a principal cidade do distrito”. Em qualquer leitura, “de Samaria” qualifica a cidade pela região à qual ela pertence. ↩
-
Darrell L. Bock, Acts, Baker Exegetical Commentary on the New Testament (Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2007), 324. ↩
-
Definição conforme o léxico de Bauer, Danker, Arndt e Gingrich (BDAG), s.v. μαγεύω. ↩
-
Convém alguma cautela ao usar Justino. Muitos estudiosos entendem que, em Primeira Apologia 26, ele interpretou mal uma inscrição romana dedicada à divindade sabina Semo Sancus, lendo-a como uma homenagem a Simão. Isso não invalida seu testemunho sobre a existência de um culto samaritano em torno de Simão, mas recomenda que não se apoie muito peso nos detalhes. ↩
-
Bock, Acts, 330. ↩
-
Em suas notas de aula, “QUESTION: Was Simon a believer?”, p. 37. ↩