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Teologia

Um estudo sobre Pentecoste

Um estudo de Atos 2:1–13 sobre a descida do Espírito Santo, o falar em línguas e o início da era da Igreja.

Atos 2:1-13 – A descida do Espírito Santo

Introdução

Lucas escreveu o seu Evangelho para “relatar todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar” (1:1a). Lucas escreveu sobre a vida, ministério, morte e ressurreição de Jesus e agora dá sequência ao relato, detalhando o ministério dos discípulos à medida que eles proclamavam as boas novas do evangelho, partindo de Jerusalém até os gentios no mundo romano.

Atos é um livro muito importante. Veja algumas razões1:

  1. Atos é o terceiro mais longo dos escritos do Novo Testamento (1003 versículos), sendo o Evangelho de Lucas o livro mais longo (1.151 versículos), seguido pelo Evangelho de Mateus (1.071 versículos). Em conjunto, Lucas-Atos compreende quase 30% do material do NT, superando os escritos de João e Paulo.
  2. Atos é a única continuação histórica dos quatro relatos dos Evangelhos nos escritos canônicos.
  3. Atos marca a transição de um ministério de base judaica para a inclusão e, posteriormente, o domínio de gentios.
  4. Atos forma o pano de fundo e o cenário para a maioria das epístolas de Paulo.
  5. Atos oferece ao cristão moderno informações básicas e percepções sobre o funcionamento da igreja primitiva. Os princípios são claros; os padrões são vagos.

Ao estudar o livro de Atos, é importante entender que ele não é um livro normativo, mas um livro descritivo. Por exemplo, se Atos fosse normativo:

  1. Os líderes da igreja deveriam ser selecionados por sorteio (Atos 1:26).
  2. A Ceia do Senhor deveria ser observada semanalmente (Atos 2:42).
  3. As viúvas deveriam ser sustentadas pela igreja (Atos 6:1).

O fato de esses três exemplos terem sido relatados no livro de Atos não os torna necessariamente obrigatórios para a igreja de hoje. Isso também não quer dizer que essas práticas sejam intrinsecamente erradas para as igrejas de hoje (bem, talvez com exceção do primeiro ponto).

No que tange à estrutura geral do livro, podemos dividi-lo da seguinte maneira:

  1. Origem em Jerusalém (1:1-6:7)
  2. Expansão para os judeus helenistas (6:8-9:31)
  3. Expansão para os gentios (9:32-12:25)
  4. Expansão entre os gentios (13:1-16:5)
  5. Expansão na Europa (16:6-19:20)
  6. Expansão para Roma (19:21-28:30)

A descida do Espírito Santo (2:1-4)

Antes de adentrarmos o texto do capítulo 2, é importante contextualizá-lo. Veja, por exemplo, as palavras de Jesus em Atos 1:5: “Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias”. Antes de sua ascensão ao céu, Jesus também declarou: “mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra”.

Além disso, veja Lucas 3:16, onde João Batista testemunha que Jesus trará o batismo pelo Espírito Santo. O Antigo Testamento também profetizou a vinda do Espírito (Isaías 32:15; 44:3; Joel 2:28-32).

Portanto, o evento que está prestes a acontecer no capítulo 2 de Atos foi abundantemente profetizado por Jesus e pelos profetas.

Atos 2:1

A narrativa do capítulo 2 de Atos começa com a chegada do “Dia de Pentecostes” (2:1a). Lucas descreve a chegada/cumprimento do dia de Pentecostes como o momento em que as promessas de Jesus, de João Batista e do AT são cumpridas.

Pentecostes, que literalmente significa “a quinquagésima parte” (referindo-se aos cinquenta dias que se passavam após a Páscoa), denota a Festa das Primícias da Colheita, celebrada sete semanas ou cinquenta dias após a Páscoa. Era essencialmente um festival da colheita, a ocasião em que os judeus agradeciam a Deus pelos dons da colheita de grãos. Foi nesta ocasião que os eventos narrados por Lucas aconteceram.

Lucas continua dizendo: “Estavam todos reunidos no mesmo lugar.” Isso provavelmente é uma referência à assembleia de 120 homens de Atos 1:15. O grupo de crentes estava junto quando este evento extraordinário ocorreu. É importante notar que aqueles mencionados por Lucas incluíam os apóstolos e judeus que também eram crentes.

Este evento especial aconteceu na presença de judeus, o que é frequentemente referido como o “Pentecostes Judaico”, ou seja, o derramamento do Espírito Santo aconteceu primeiro entre os crentes judeus.

Atos 2:2

A narrativa continua no segundo versículo e descreve que “de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso que soprava” (Atos 2:2). A reunião da assembleia de 120 homens foi subitamente interrompida por um som que Lucas descreve como um “vento impetuoso”.

A palavra “céu” aqui não é necessariamente uma referência ao lugar de habitação de Deus (o terceiro céu), pois, se fosse o caso, provavelmente nenhum som seria audível; “céu” aqui é melhor visto como uma referência ao “firmamento” ou à atmosfera imediata acima de nós. Logo, devemos ser cautelosos em igualar o “vento” ao Espírito. Apesar disso, temos aqui um elemento claramente sobrenatural e, como é recorrente em Atos, eventos sobrenaturais frequentemente acontecem para atestar as poderosas obras do Espírito Santo.

De acordo com Schnabel, a descrição de Lucas do som — “vento impetuoso que soprava” — é muito provavelmente uma comparação com eventos meteorológicos conhecidos tanto por Lucas quanto por seus leitores. No entanto, note que não são a mesma coisa; é apenas “como” aquele som. Lucas esclarece que o que ele descreve não é um evento padrão ou natural.

Em seguida, toda a casa onde a assembleia estava foi preenchida pelo som. Como já mencionado, o “vento” não parece ser o próprio Espírito. Lucas distingue entre o som que encheu a casa e o estar cheio do Espírito Santo, descrito apenas no versículo 4. Schnabel observa que o termo grego que significa tanto vento quanto Espírito não é o usado aqui.

Portanto, o enchimento da casa com o som que veio do céu faz parte da descrição de Lucas do evento sobrenatural que estava acontecendo; aqui, Lucas descreve o primeiro fenômeno.

Atos 2:3

Outro fenômeno foi o aparecimento, diante deles, de “línguas, como de fogo”. O primeiro fenômeno manifestou-se por meio do som, e o segundo foi óptico. Os homens podiam agora ver o fenômeno sobrenatural que estava acontecendo!

Lucas compara essa manifestação óptica com “línguas, como de fogo”. O fenômeno então se torna pessoal à medida que “pousou uma sobre cada um deles”; isso está conectado com a capacitação deles para falar em línguas estrangeiras não aprendidas (Atos 2:4-11).

Atos 2:4

Os que estavam presentes ficam, então, cheios do Espírito Santo (Atos 2:4); isso acontece em conexão com os dois eventos sobrenaturais relatados por Lucas. A conjunção “e”, que conecta este resultado com o que Lucas descreveu antes, deixa isso claro. Como resultado de serem cheios do Espírito Santo, eles começaram a falar em outras línguas. Lucas atribui explicitamente ao Espírito a capacidade de falar diferentes línguas “conforme o Espírito lhes concedia que falassem”.

Nem todos concordam com o propósito do falar em línguas neste contexto; alguns sugerem que o falar em línguas funciona como uma capacitação evangelística para que cada pessoa, independentemente de sua língua, possa ouvir sobre a obra de Deus. Outros preferem focar na atestação sobrenatural dos eventos que estavam ocorrendo.

Entendo que aqui temos primariamente um propósito de autenticação e, em segundo plano, um propósito evangelístico, por meio do qual diversos judeus puderam ouvir as maravilhas de Deus em suas línguas originais. O milagre do falar em línguas certamente chamou a atenção para um grande e importante evento do plano de Deus!

Ao longo do livro de Atos, vemos o Espírito Santo sendo derramado incrementalmente sobre pessoas de fora do grupo de judeus observadores da Lei, a ponto de incluir crentes não judeus. O falar em línguas era a maneira pela qual os judeus tinham a certeza de que o Espírito Santo havia, de fato, descido sobre os gentios (veja Atos 10:44-48).

Portanto, Lucas narra o progresso da “nova comunidade de crentes” em Atos, que foi inaugurada com o Pentecostes Judaico: a igreja teve sua origem em Jerusalém (Atos 1:1-6:7), foi expandida para os judeus helenistas (Atos 6:8-9:31), alcançou os gentios (Atos 10-16:5), finalmente se expandiu para a Europa (Atos 16:6-19:20) e chegou a Roma (Atos 19:21-28:30). O Pentecostes Judaico, descrito aqui por Lucas, foi um evento crucial que cumpriu as palavras de Jesus e, em última análise, permitiu que as Boas Novas chegassem a todas as nações.

Sobre o falar em línguas

Naturalmente, uma pergunta que é feita ao ler um texto como Atos 2 é: ele justifica o fenômeno moderno de falar em línguas? Devemos ter a expectativa de “falar em línguas” hoje?

Para responder a essa pergunta, vale a pena destacar quatro aspectos do falar em línguas em Atos:

  1. Teve um propósito particular: fazia parte dos fenômenos notáveis que atestavam o quão especial era o evento que estava acontecendo por meios sobrenaturais.
  2. Não há indicação em Lucas-Atos de que este fosse um dom permanente; Lucas, por exemplo, não indica que Pedro pregou seu sermão em vários idiomas ou que este tenha sido traduzido para que todos entendessem.
  3. A audiência era capaz de entender quando os homens estavam falando em suas línguas nativas. Este foi o motivo de muitos na multidão terem ficado extasiados.
  4. As línguas faladas eram humanas.

Uma discussão sobre o fenômeno moderno de falar em línguas e o debate entre continuístas e cessacionistas está além do escopo deste texto. No entanto, é possível afirmar claramente que ninguém pode usar a narrativa de Atos 2 para justificar o “fenômeno moderno” de falar em línguas comumente manifestado nos círculos pentecostais.2

O que exatamente significa, porém, ser cheio do Espírito?

O “estar cheio do Espírito” em Atos 2:4 está conectado à ideia de ser batizado com o Espírito; é um cumprimento de Lucas 3:16. Portanto, no contexto do Pentecostes, a promessa de Jesus se cumpriu, e o Espírito Santo foi derramado sobre os crentes para equipá-los a continuar a obra de Jesus.

No período de transição, ou seja, em Atos, o derramamento do Espírito não está necessariamente conectado à salvação. Os 120 homens, por exemplo, já eram crentes, mas ainda não haviam recebido o Espírito Santo antes deste momento. No entanto, isso não quer dizer que o batismo no Espírito Santo seja um evento distinto nos dias de hoje. Lembremos que Atos narra um processo de transição e o início da igreja.

Daquele ponto em diante, qualquer judeu e, posteriormente, qualquer gentio que se arrependesse de seus pecados e cresse em Jesus também receberia o Espírito Santo. Pedro deixa isso bem claro em Atos 2:38.

A promessa de Pedro em Atos 2:38 (“Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo”) estabelece um novo padrão para os judeus que se converteriam depois do Pentecostes. Para esses, o arrependimento, a fé e o recebimento do Espírito Santo estariam intrinsecamente ligados, ocorrendo em um mesmo momento.

Não devemos, portanto, usar a narrativa de Atos 2 para justificar a ideia de que o Espírito Santo passa a habitar o crente apenas em um segundo momento, talvez quando este se torna espiritual o suficiente, nem a ideia de que a chegada do Espírito Santo (e, consequentemente, o falar em línguas) demonstraria a maturidade espiritual do crente.3

É importante destacar também a distinção entre o batismo pelo Espírito Santo e a ideia mais geral de sermos cheios do Espírito Santo como um ato contínuo. O batismo no Espírito Santo é um ato único e irrevogável, insere-nos no corpo de Cristo e faz com que o Espírito Santo habite em nós. Creio, sem sombra de dúvida, que isso ocorre no momento da salvação do pecador.

O Novo Testamento, no entanto, também fala de sermos cheios do Espírito:

  1. Como forma de capacitação para algo (veja At 4:8; 4:31; 6:3, 5).
  2. Como algo contínuo que todo crente deve buscar: a ideia de ser controlado/influenciado pelo Espírito Santo (Ef 5:18; Gl 5:16).

É importante não confundir essas duas ideias e associar a capacitação e a santificação pelo Espírito Santo a fenômenos sobrenaturais como o falar em línguas.

A reação à descida do Espírito Santo (2:5-13)

Na segunda seção do texto, temos a narrativa da resposta à vinda do Espírito Santo. No versículo 6, Lucas observa que uma “multidão se ajuntou” depois de ouvir um som; portanto, nesta segunda seção, há outras pessoas além dos 120 crentes iniciais e dos discípulos. A cena muda da casa para as ruas.

Lucas descreve o grupo de pessoas atraídas pelo som do que estava acontecendo como “homens piedosos de todas as nações que há debaixo do céu”. Piedosos ou “tementes a Deus” não significam necessariamente crentes. Neste contexto, “homens piedosos” significa judeus que observam a lei e as tradições judaicas; eles não podem ser “crentes”, pois mais tarde lhes será dito para se arrependerem e serem batizados (Atos 2:38).

A expressão “de todas as nações que há debaixo do céu” refere-se a judeus da Diáspora ou a peregrinos judeus que vieram a Jerusalém por causa do dia de Pentecostes.

Este grupo foi atraído muito provavelmente não pelo som do vento ou pelos eventos sobrenaturais que os 120 homens experimentaram, mas porque ouviram alguns desses homens falarem em outras línguas. Eles podem ter sido atraídos por isso porque era inesperado que esses homens falassem em línguas não nativas.

No versículo 7, Lucas os descreve como assombrados e maravilhados, e eles perguntam a si mesmos: “Não são, porventura, galileus todos esses que estão falando?” Ou seja, eles sabiam que aqueles homens eram galileus e, portanto, seria muito incomum que tais homens falassem nas línguas que estavam falando. Além disso, eles sabiam que os que falavam eram galileus, seja por seus sotaques, seja porque alguns deles os reconheceram como discípulos de Jesus.

O espanto com o que estava acontecendo não atingiu apenas os 120 crentes; pessoas de fora também ficaram maravilhadas. Os verbos gregos usados para descrever sua reação nos versículos 7 e 12 podem ser resumidos como “ficar extraordinariamente impressionado ou perturbado por algo”.

No versículo 8, o grupo de fora se pergunta: “Como é que nós os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna?” O grupo atesta o evento milagroso que estava ocorrendo, mas, em um primeiro momento, não tem uma explicação para o que estava acontecendo!

Nos versículos 9-11, Lucas faz um resumo de alguns dos lugares geográficos de onde os judeus piedosos vinham e, no final do versículo 11, há outra declaração sobre o fato de que eles podiam “ouvi-los anunciar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus”. Que grande bênção o evangelho de Deus ter sido anunciado a tantas nacionalidades diferentes!

Esta seção conclui descrevendo como algumas pessoas na multidão não ficaram maravilhadas com o que estava acontecendo. Em vez disso, elas zombaram e apontaram o que pensavam ser uma explicação mais racional: os discípulos estavam bêbados!

Pedro imediatamente rejeitou essa explicação ao se dirigir à multidão no versículo 14. Essas pessoas estavam experimentando os poderosos atos de Deus e talvez até conhecessem os discípulos ou tivessem ouvido falar deles, mas, independentemente disso, não responderam positivamente às maravilhas que ouviram.

Conclusão

O estudo de Atos 2:1-13 revela a descida do Espírito Santo como um evento central e transformador, marcando o cumprimento das promessas divinas e o início da era da Igreja. A descida do Espírito Santo capacitou os discípulos a proclamarem as boas novas do evangelho e a prosseguirem com o ministério de Jesus até os confins da terra.

Algumas aplicações para nós hoje:

  1. O derramamento do Espírito Santo iniciou a proclamação das boas novas em um contexto mundial.

    Nosso trabalho é continuar proclamando as boas novas da salvação de Deus por meio de Jesus ao mundo inteiro. O que começou em Atos 2 não terminou no capítulo final de Atos. Foi apenas o início de uma nova era; foi um ponto de virada importante na Grande Comissão estabelecida por Jesus.

  2. Deus capacita seus servos para fazer a sua obra.

    Depois de receber o Espírito Santo, os discípulos foram capacitados de muitas maneiras para continuar a obra de Jesus. Eles realizaram sinais e maravilhas e foram habilitados a sofrer em Seu nome. O livro de Atos está cheio de exemplos em que eles foram capacitados ou dirigidos pelo Espírito Santo.

    Agora que o período de transição acabou, não devemos esperar que as mesmas coisas sobrenaturais obrigatoriamente aconteçam em nossos dias (isso não significa dizer que Deus não tem poder para fazê-las), mas o fato de que Deus capacita seus servos para sua obra permanece! Não devemos ficar preocupados ou com medo de fazer o que Deus nos pede para fazer, porque Ele nos capacitará e nos usará de acordo com a sua vontade para cumprir os seus planos.

  3. A salvação vem pela fé e não em virtude da experiência.

    A reação de parte da multidão em zombar dos crentes que falavam em línguas é um exemplo vívido do fato de que ninguém vem a Jesus através de experiências sobrenaturais, mas somente através da fé.

Notas

  1. Notas de aula do Pr. David Melin no Central Seminary.

  2. Note que, apesar de eu não crer que o falar em línguas seja um fenômeno para os dias de hoje, o meu ponto aqui é somente que Atos 2 não pode ser usado em defesa desse ensino.

  3. Semelhantemente, não creio em uma salvação em duas etapas, em que o Espírito Santo passa a habitar o crente posteriormente à sua conversão, mas aqui só estou apontando que Atos 2 não pode ser usado para defender essa posição teológica.