Teologia
Jesus poderia pecar?
Um panorama do debate sobre a pecabilidade e a impecabilidade de Cristo, com uma defesa de que ele não poderia ter pecado.
Resumo
A pergunta que dá título a este trabalho, “Jesus poderia pecar?”, tem sido objeto de debate entre teólogos ao longo da história da igreja. Embora a maioria concorde que Jesus não pecou, a questão de se ele poderia ter pecado é motivo de controvérsia, até mesmo entre os estudiosos mais ortodoxos. Esse debate, muitas vezes denominado pecabilidade ou impecabilidade de Cristo, é o foco deste trabalho. Ele examina as posições mais comuns sobre a questão e apresenta a posição do autor. A tese do autor — de que Jesus não poderia ter pecado em razão da união hipostática, do fato de a pecabilidade não ser inerente à natureza humana e de a tentação não implicar a capacidade de pecar — tem peso significativo nessa discussão.
A pergunta sobre se Jesus poderia pecar talvez soe herética. Segundo as Escrituras, Jesus claramente não pecou; por que alguém faria tal pergunta ou buscaria uma resposta para ela? É importante entender que o debate sobre a pecabilidade ou a impecabilidade de Cristo, por si só, não está diretamente relacionado à ausência de pecado em Cristo. Afirmar que o Jesus encarnado poderia pecar não é o mesmo que afirmar que ele pecou. A posição conhecida como pecabilidade (potuit non peccare) sustenta que Jesus, em sua encarnação, era capaz de não pecar; em outras palavras, ele poderia ter pecado, mas escolheu não fazê-lo. A impecabilidade (non potuit peccare) afirma que ele não era capaz de pecar ou que lhe era impossível pecar. Portanto, tratar da pergunta “Jesus poderia pecar?” é válido, porém difícil.
A dificuldade dessa questão está no fato de que os autores do Novo Testamento não a abordam diretamente. Segundo Michael Canham, quando a Escritura não trata claramente de um assunto, devemos perguntar quais “questões hermenêuticas e teológicas incidem sobre a decisão de alguém a respeito desse assunto”.1 Essa é uma consideração essencial, pois é possível que uma decisão não leve tudo em conta. Por exemplo, os defensores da impecabilidade podem concentrar-se excessivamente na natureza divina, enquanto os defensores da pecabilidade podem diminuir a natureza divina de Jesus. A melhor abordagem desse tema leva devidamente em conta todas as questões hermenêuticas e teológicas relevantes que dizem respeito à Pessoa de Cristo.
Este trabalho não apresenta uma defesa da ausência de pecado em Jesus. O ensaio toma a ausência de pecado em Cristo como uma verdade fundamental sobre a Pessoa de Cristo, amplamente afirmada na Bíblia por diferentes autores do NT.2 Qualquer pessoa que tente usar esse debate para formular uma posição segundo a qual Jesus não é Deus ou pecou é herética e é condenada pelo presente autor. O foco deste trabalho limita-se principalmente às diferentes posições sustentadas no âmbito da cristologia ortodoxa.
Um breve panorama do debate
A posição de que Jesus poderia ter pecado (pecabilidade ou potuit non peccare) é a preferida por Charles Hodge, que afirma que a ausência de pecado em Jesus “não equivale à impecabilidade absoluta” e que “a tentação implica a possibilidade de pecado”.3 Para Hodge, se Jesus não pudesse pecar, suas tentações não teriam sentido, e ele não seria capaz de se compadecer das pessoas que estava salvando. Esse raciocínio se baseia principalmente em Hb 4:15: “[…] alguém que, em todos os aspectos, foi tentado como nós, mas sem pecado”.4 Se Jesus foi tentado como nós, ele deve ter tido a possibilidade de pecar, assim como nós.
Millard Erickson também favorece a pecabilidade. Ele distingue a “possibilidade epistêmica do pecado da possibilidade lógica ou metafísica”.5 Ao fazê-lo, Erickson argumenta que “era realmente possível que Jesus decidisse pecar, mas a natureza divina impedia que ele de fato o fizesse”.6 Ele afirmou que a tentação era genuína “desde que sua natureza divina não o impedisse de pensar que poderia pecar”.7 Em outras palavras, a tentação de Jesus era real porque ele não sabia que não poderia ter pecado; portanto, do ponto de vista de Jesus, ele escolheu não pecar ao resistir à tentação. Ao desenvolver seu argumento, Erickson também refletiu sobre a possibilidade de algo ocorrer e a probabilidade de que isso acontecesse; assim, afirma que Jesus poderia ter pecado sob certas condições. Ainda assim, era inevitável que essas condições jamais fossem todas satisfeitas.
Sustentando uma posição muito mais extrema, Irving defendeu que Jesus poderia ter pecado e que, em sua encarnação, assumiu uma natureza humana caída.8 Essa posição lhe custou o ministério, pois ele foi afastado de sua igreja devido ao seu ensino sobre a pessoa de Cristo.9 James Martineau enfatiza a natureza humana de Jesus ao afirmar: “Se Jesus era humano em todos os aspectos, como afirmamos, ele deve ter sido capaz de falhar moralmente; as tentações que o assaltaram eram genuínas, e sua realidade implica a possibilidade de pecado”.10 Herman Menken prefere se concentrar nas tentações genuínas de Jesus para afirmar a possibilidade de pecar: “A verdadeira tentação de Jesus mostra que ele se encontrava em uma condição humana na qual estava presente a possibilidade de pecar; portanto, não podemos afirmar que sua ausência de pecado era garantida apenas por sua natureza divina”.11 Hermann Holsten sustenta posição semelhante.12 Paul Pfleiderer recorre à teoria de que, se Jesus não pudesse pecar, sua vida e suas lutas careceriam de real significado.13
A impecabilidade de Cristo (non potuit peccare) é a posição sustentada pela maioria dos estudiosos e teólogos ortodoxos. Os que defendem essa posição geralmente observam que, se Cristo pudesse ter pecado, Deus também poderia.14 Bavinck sugere que a natureza divina mantém Cristo impecável, enquanto sua natureza humana o torna suscetível à tentação.15 William G. T. Shedd explica a impecabilidade de Cristo afirmando que a vontade divina é superior à vontade humana; assim, mesmo que a natureza humana estivesse suscetível à tentação, a pessoa teantrópica não poderia pecar, isto é, Cristo não poderia ceder a nenhuma tentação porque sua vontade divina não lhe permitiria pecar.16 Gerald O’Collins propõe que “Jesus poderia ser verdadeiramente tentado e provado, desde que não soubesse que não poderia pecar”.17 Para Jonathan Edwards, Jesus não poderia pecar, pois “sua conduta santa era necessária” e “era impossível que o Messias deixasse de perseverar em integridade e santidade, como fez o primeiro Adão”.18
Bruce Ware apresenta uma proposta alternativa: Jesus era genuinamente impecável porque, em sua encarnação, estava unido “à imutável e eternamente santa segunda pessoa da Trindade”. Ele resistiu à tentação não por meio de sua natureza divina, mas mediante os recursos que lhe foram concedidos como ser humano; isto é, ele não podia pecar porque era Deus e não pecou porque o Espírito Santo o capacitou.19
Michael Canham resume bem o debate ao destacar os três argumentos principais de cada posição.20 Abaixo está uma versão simplificada dos argumentos favoráveis à pecabilidade resumidos por Canham:
- A plena humanidade de Cristo: Se Jesus era plenamente humano, deve ter tido a capacidade de pecar.
- A suscetibilidade de Cristo à tentação: A capacidade de ser tentado implica o potencial ou a capacidade de pecar.
- O livre-arbítrio de Cristo: Assim como Adão, Cristo tinha livre-arbítrio, o que implica pecabilidade.
Segundo Canham, os principais argumentos a favor da impecabilidade são os seguintes:
- A divindade de Cristo: Cristo é Deus, e sua personalidade reside em sua divindade.
- Os decretos de Deus: Uma vez que Deus já havia determinado que Jesus não poderia pecar, nada que ele pudesse fazer teria mudado isso.
- Os atributos divinos de Cristo: Se Jesus pudesse ter pecado enquanto estava na terra, poderia pecar agora, visto que é imutável.
Após examinar o debate, Canham prefere uma posição intermediária. Ele acredita que a melhor resposta à pergunta é que “Cristo, em sua encarnação, era tanto pecável quanto impecável, mas, em sua quênose, sua pecabilidade limitou sua impecabilidade”.21 Ele argumenta que a quênose de Cristo lhe permitiu ser tanto pecável quanto impecável e que isso constitui uma antinomia, isto é, apenas uma contradição aparente que os seres humanos não conseguem compreender plenamente.
Uma resposta à pergunta
Nesta seção, propõe-se uma resposta à pergunta. Em resumo, a resposta do autor a essa questão se baseia em três conceitos: (1) a união hipostática de Cristo, (2) o fato de que a capacidade de pecar não é inerente à natureza humana e (3) a tentação não implica pecabilidade.
Donald Macleod define o termo “união hipostática” da seguinte maneira:
O termo “união hipostática” abrange três verdades: que Cristo é uma só pessoa; que a união entre suas duas naturezas decorre do fato de ambas pertencerem a uma única e mesma pessoa; e que essa única pessoa, o Filho de Deus, é o agente por trás de todas as ações do Senhor, aquele que enuncia todas as suas declarações e o sujeito de todas as suas experiências.22
Sendo assim, não se pode raciocinar separadamente sobre a natureza humana ou divina de Jesus no debate entre pecabilidade e impecabilidade.23 Não devemos perguntar: “Qual natureza fez isso?” Sempre que nos referimos a Jesus Cristo, precisamos entender que ele é o Filho de Deus. Jesus Cristo não seria Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado, sem sua natureza humana. Da mesma forma, não seria Jesus Cristo, o Filho de Deus, sem sua natureza divina. Sempre que uma das naturezas de Jesus é enfatizada em excesso, há um grande risco de se chegar a um argumento antibíblico. Portanto, a pergunta sobre se Jesus poderia ter pecado deve ser respondida levando em consideração a união hipostática de Cristo e, à luz disso, a resposta é claramente não: Jesus não poderia ter pecado. Essa posição é apoiada por Macleod.24
Um segundo argumento a favor da impecabilidade é que a capacidade de pecar não é inerente à natureza humana. Adão foi criado sem pecado, mas podia pecar (humanidade anterior à queda). Contudo, é difícil construir um argumento bíblico para afirmar que a natureza humana de Jesus era exatamente igual à de Adão ou, pior ainda, que sua natureza humana era caída, como fez Irving. Shedd argumenta que Cristo, “embora tivesse uma natureza humana pecável em sua constituição, era uma Pessoa impecável”.25 Embora defendesse a impecabilidade, Shedd pressupôs que a natureza humana assumida por Cristo era a mesma de Adão. Não parece ser assim que os autores do NT apresentam Cristo nos diversos paralelos entre Adão e Cristo. Cristo é chamado de “o último Adão”. 1Co 15:22 diz: “Pois, assim como em Adão todos morrem, também em Cristo todos serão vivificados”. Não parece que a natureza humana de Adão estivesse à altura da de Cristo. Embora Canham sustente uma posição mista, ele observou corretamente que “Cristo é aquele em quem o homem ideal se concretiza”.26
O homem ideal não se concretiza em alguém que possui uma natureza humana pecável. O homem perfeito só se concretizará plenamente em corpos humanos glorificados (1Co 15:35–46). Assim como Cristo, no futuro teremos um corpo incapaz de pecar. Erickson apoia a ideia de que “nossa humanidade não é um padrão pelo qual medimos a dele”.27
O argumento final é que a tentação de Jesus Cristo não implica que ele poderia ter pecado. Segundo Macleod, “ele não foi tentado por nada que houvesse dentro de si mesmo”.28 Jesus não tinha predisposição para o pecado; ainda assim, foi tentado, em certa medida, como nós. Contudo, sentir fome, medo e dor — coisas por meio das quais Jesus foi tentado — não é sinal da condição caída. Nesse sentido, Cristo foi tentado como nós, mas, ao contrário de nós, não poderia ter sido tentado por seu próprio desejo (Tg 1:13–14). Além disso, devido à quênose de Cristo (Fp 2:6–7), era improvável que ele soubesse que não podia pecar. Portanto, embora fosse impossível que a tentação vencesse Cristo, Jesus nem sempre tinha consciência disso.
Notas
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Canham, Michael McGhee. “POTUIT NON PECCARE OR NON POTUIT PECCARE: EVANGELICALS, HERMENEUTICS, AND THE IMPECCABILITY DEBATE.” TMSJ 11:1 (primavera de 2000), 93–114. ↩
-
Algumas referências bíblicas afirmam claramente a ausência de pecado em Jesus: Jo 7:18; 8:29; Lc 1:35; 4:34; e Mt 27:19. ↩
-
Hodge, Charles. Systematic Theology Vol. II. Grand Rapids, Michigan 49516: WM. B. EERDMANS PUBLISHING CO., 1940, 456. ↩
-
Salvo indicação em contrário, todas as referências bíblicas são da English Standard Version (ESV), e as citações bíblicas foram traduzidas dessa versão. ↩
-
Erickson, Millard. The Word Became Flesh: A Contemporary Incarnational Christology. 1ª ed. Grand Rapids, Michigan 49516: Baker Book House, 1991, 562. ↩
-
Ibidem. ↩
-
Ibidem. ↩
-
Irving, Eduard. The Doctrine of the Incarnation Opened: An Abridgement with Introduction and Response. Cambridge: The Lutterworth Press, 2023. ↩
-
Irving, contudo, nunca afirmou que Jesus fosse pecaminoso. Para Irving, o fato de Jesus assumir uma natureza humana caída foi o meio pelo qual ele trouxe a salvação. ↩
-
Martineau, James. The Study of Religion: Its Sources and Contents. London: Longmans, Green, and Co., 1888. ↩
-
Menken, Hermann. The Gospel of Jesus. London: James Clarke & Co., 1893. ↩
-
Holsten, Hermann. Theological Investigations. Editado por Alfred Loisy. Traduzido por S. B. McCaffrey. London: Williams and Norgate, 1900. Ele afirma que “a verdadeira tentação requer a possibilidade de sucumbir”. ↩
-
Pfleiderer, Paul. The Development of Theology in Germany since Kant. London: T. & T. Clark, 1890. ↩
-
Bavinck, Herman, e John Bolt. Reformed Dogmatics. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2011, 314. ↩
-
Ibidem. ↩
-
Shedd, Willian G.T. Dogmatic Theology. Vol. 2. New York: C. Scribner’s, 1888, 333. ↩
-
O’Collins, Gerald. Christology: A Biblical, Historical, and Systematic Study of Jesus. 2ª ed. Great Clarendon Street: Oxford University Press, 2009. ↩
-
Jonathan Edwards, On the Freedom of the Will, III.II. Ver The Works of Jonathan Edwards, vol. I (1834), pp. 42 e seguintes, conforme citado em Donald Macleod, The Person of Christ, ed. Gerald Bray, Contours of Christian Theology (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1998), 229. ↩
-
Ware, Bruce A. The Man Christ Jesus: Theological Reflections on the Humanity of Christ. Wheaton, IL, 52–62. ↩
-
Canham, Michael McGhee. “POTUIT NON PECCARE OR NON POTUIT PECCARE: EVANGELICALS, HERMENEUTICS, AND THE IMPECCABILITY DEBATE,” 94–95. ↩
-
Ibidem. ↩
-
Donald Macleod, The Person of Christ, ed. Gerald Bray, Contours of Christian Theology (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1998), 189. ↩
-
Diversas passagens bíblicas sustentam essa ideia, sendo Jo 1:1–18 uma passagem fundamental sobre o tema. ↩
-
Donald Macleod, The Person of Christ, 189–190. ↩
-
Shedd, Willian G.T. Dogmatic Theology, 333. ↩
-
Canham, Michael McGhee. “POTUIT NON PECCARE OR NON POTUIT PECCARE: EVANGELICALS, HERMENEUTICS, AND THE IMPECCABILITY DEBATE.” TMSJ 11:1 (primavera de 2000), 109. ↩
-
Erickson, Millard J. Christian Theology. 3ª ed. Grand Rapids, Mich.: Baker Academic, 2013, 721. ↩
-
Donald Macleod, The Person of Christ, 226. ↩