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Teologia

A fé precede a regeneração na ordem da salvação?

Um panorama de três posições sobre a ordem entre fé e regeneração, com uma defesa de que a fé precede logicamente a regeneração.

Resumo

O debate sobre a ordem da salvação (ordo salutis) está no cerne do debate soteriológico. Embora seja amplamente aceito que a ordo salutis não diz respeito à cronologia, a ordenação lógica dos diversos aspectos da obra de Deus na salvação dos seres humanos continua sendo objeto de divergência, sobretudo entre sistemas teológicos opostos. No entanto, pode haver discordâncias até mesmo dentro de um mesmo sistema teológico (por exemplo, entre arminianismo e calvinismo). Este artigo examina as três principais respostas a essa questão. Seu objetivo é desenvolver um argumento fundamentado em favor da precedência da fé em relação à regeneração, considerando o cerne do debate: o fundamento da fé humana.

A ordo salutis é uma construção teológica que busca descrever uma relação ou ordem lógica dos acontecimentos que constituem a salvação. Essa ordem não é exposta explicitamente nas Escrituras, mas os elementos da salvação e, pelo menos, uma ordenação parcial podem ser deduzidos delas com pouca controvérsia. Por exemplo, é amplamente aceito que a fé precede a conversão, isto é, a fé salvífica é necessária para que alguém seja salvo. Contudo, responder à pergunta sobre a origem ou o fundamento da fé salvífica está no cerne desse debate soteriológico.

É importante observar que a ordo salutis não busca estabelecer uma ordem temporal, mas uma ordem lógica.1 Berkhof enfatiza que “Deus não concede ao pecador a plenitude de sua salvação em um único ato”.2

Há três respostas principais a essa questão: (1) a posição sinergista (geralmente chamada de resposta arminiana), segundo a qual a fé precede a regeneração e a graça preveniente ou antecedente capacita todos os seres humanos a exercer a fé, restaurando a capacidade moral humana apenas na medida suficiente; (2) a posição monergista (a posição reformada tradicional), que situa a regeneração antes da fé e enfatiza a incapacidade humana de responder positivamente ao chamado para a salvação; e (3) uma variante da posição reformada (a posição do calvinismo moderado), que situa a fé antes da regeneração sem aceitar a resposta arminiana da graça preveniente ou antecedente. Em vez disso, essa variante argumenta que muitos textos sugerem que a regeneração não pode preceder a fé e que o chamado eficaz ou a obra de convencimento do Espírito Santo é o fundamento daquilo que leva ou capacita os eleitos a exercer a fé salvífica.

Na próxima seção, este artigo apresenta um panorama das três principais respostas e de seus proponentes mais destacados, concentrando-se no ponto central do debate que, como será demonstrado, se resume à questão de qual é o fundamento da fé salvífica. Alguns teólogos contestaram o conceito de uma ordo salutis estrita, argumentando que a fé e a regeneração são simultâneas3 ou, em formulações mais recentes de teólogos modernos, que se trata de um processo contínuo.4 Este artigo não incluirá uma análise nem uma refutação dessas posições.

Um breve panorama do debate: as três principais respostas

A ordo salutis arminiana (sinergismo) sustenta que a fé deve preceder a regeneração, o que decorre principalmente de sua doutrina da eleição condicional e de sua compreensão da graça preveniente como aquilo que restaura “capacidade moral suficiente” para que o ser humano responda com fé. Berkhof resume bem a posição arminiana:

A ordem arminiana da salvação, embora atribua ostensivamente a obra da salvação a Deus, na verdade a torna dependente da atitude e da obra do ser humano. Deus abre ao ser humano a possibilidade da salvação, mas cabe a este aproveitar a oportunidade.5

Os principais argumentos a favor dessa posição são: (1) a fé é frequentemente descrita como um ato do livre-arbítrio; e (2) a regeneração deve suceder à fé para que a responsabilidade humana seja preservada. Entre os textos bíblicos usados para sustentar essa posição estão At 16:31, Jo 1:12–13 e Rm 10:9–10. Deve-se observar que, para sustentar essa posição, é necessário adotar todo o conjunto de pressupostos arminianos.

Jacó Armínio enfatizou o papel da graça preveniente que, em sua opinião, restaura um grau suficiente de livre-arbítrio ou de capacidade moral para que os seres humanos creiam e respondam ao chamado externo de Deus.6 John Wesley enfatizou a cooperação sinergista entre a fé humana e a graça de Deus, propondo que a fé é a condição por meio da qual ocorre a regeneração.7

A maioria dos teólogos reformados enfatiza a doutrina da depravação total para argumentar que a regeneração deve preceder a fé. Antes de desenvolver seus argumentos sobre a precedência da regeneração, Murray declarou: “Por ora, basta recordar que, como pecadores, estamos mortos em delitos e pecados”.8 Os principais argumentos dessa posição são: (1) a depravação total da humanidade torna impossível que pessoas não regeneradas creiam; e (2) a regeneração é um ato soberano de Deus que capacita a pessoa a ter fé. Entre os textos bíblicos usados para sustentar essa posição estão Jo 6:44, Jo 3:3 e Ef 2:1–5.

Gordon H. Clark, em um artigo que rejeita a ideia de que a teologia reformada situa a fé antes da regeneração, citou Jo 5:24 e declarou que “quando o pecador ouve e crê, isto é, exerce fé, ele já foi regenerado”.9 Charles Hodge também situa a regeneração antes da fé em sua teologia sistemática; segundo ele, “O primeiro exercício consciente da alma renovada é a fé”.10

Segundo R. C. Sproul, “Não cremos para nascer de novo; nascemos de novo para que possamos crer”.11 Ele constrói seu argumento sobretudo com base na doutrina da depravação total, que implica que o ser humano está espiritualmente morto. Conclui, portanto, que primeiro precisamos ser regenerados para então podermos exercer fé. Snoeberger argumenta que é equivocado presumir que a Bíblia ensina a precedência da fé. Ele reconhece que muitas passagens apresentam a fé ou o arrependimento para a salvação, mas argumenta que o fato de a fé preceder a salvação12 não significa que ela também preceda a regeneração.13

A variante da posição reformada defende a precedência da fé. Contudo, ao contrário da posição arminiana, ela argumenta que o Espírito Santo capacita os eleitos a exercer a fé. O chamado eficaz de Deus costuma ser considerado por seus defensores o fundamento — ou o meio — pelo qual o ser humano pode exercer a fé. Os argumentos principais são: (1) situar a regeneração antes da fé torna ineficaz o chamado eficaz de Deus; e (2) a regeneração e o chamado eficaz de Deus são atos distintos de Deus. Entre os textos bíblicos usados para sustentar essa posição estão At 16:31, Ef 2:5 e 8, Jo 3:15–16 e outros.

Segundo Chafer, Deus, por meio do Espírito, “exerce sobre os não salvos uma influência pela qual podem aceitar Cristo como Salvador de maneira consciente”.14 Chafer crê que a eleição divina se manifesta por meio da obra capacitadora do Espírito Santo. Demarest declara: “A fé não parece ser um efeito ou fruto da regeneração, como sustentam muitos calvinistas”.15 Ele assinala que textos bíblicos explícitos sugerem que a fé precede logicamente a regeneração, como Jo 1:12–13, que indica que receber Cristo (fé) resulta em um novo nascimento (regeneração).

John F. Walvoord afirma que, embora a regeneração faça parte da obra do Espírito Santo, ela sucede à fé humana. Segundo ele, a fé é a condição para receber a nova vida que o Espírito concede.16 Ele também enfatiza o papel da responsabilidade humana na resposta à oferta divina de salvação; Walvoord distingue a obra de convencimento/iluminação do Espírito da obra de regeneração/transformação do Espírito, sendo que esta sucede àquela.

Podemos resumir a discussão examinando qual deve ser o fundamento da fé. Na posição arminiana, o fundamento da fé é o livre-arbítrio humano. Na posição reformada tradicional, o fundamento da fé é a obra de Deus por meio da regeneração. Nessa variante da posição reformada, é a obra de Deus por meio de seu chamado eficaz ou da iluminação do Espírito Santo. Portanto, a ordo salutis não determina se alguém é arminiano ou calvinista; o fundamento da fé, contudo, determina, e é nisso que o autor se concentrará ao buscar uma resposta para a questão.

Uma resposta à questão

A resposta a essa questão deve ser formulada a partir da pergunta fundamental sobre qual é o fundamento da fé. O que leva um crente a exercer fé em Deus? Encontrar dados bíblicos apropriados para responder a essa pergunta é essencial para elaborar uma resposta adequada.

Em Ef 2:4, Paulo ensina que todos nós estávamos “mortos nos delitos e pecados”.17 Isso evidencia a incapacidade do ser humano de vir a Deus por sua própria vontade. Além disso, Rm 8:28–30 ensina que o plano de salvação é uma obra de Deus. Ele nos predestinou e nos chamou; fez tudo o que era necessário para que fôssemos a ele e crêssemos nele, a fim de que pudéssemos “ser conformes à imagem de seu Filho”. Portanto, em sentido mais amplo, o fundamento da fé é a obra de Deus, e não a obra do ser humano, visto que este não pode se voltar para Deus e exercer fé por sua própria vontade. Esse ensino bíblico rejeita a posição arminiana acerca da ordo salutis.

Tendo estabelecido, em sentido mais amplo, que o fundamento da fé é a ação de Deus no ser humano, devemos agora examinar mais detidamente essa afirmação e perguntar: qual ato de Deus na ordo salutis é o fundamento para o ser humano exercer fé? Como demonstrado, isso se resume sobretudo a duas opções: a regeneração ou algo como o chamado eficaz (alguns teólogos referem-se de modo mais amplo à obra de convencimento do Espírito Santo). Vários textos bíblicos sugerem que a fé é o “ponto de entrada” da salvação; os pecadores são salvos pela graça, mediante a fé (At 16:31; Rm 10:9; Rm 10:13; 2Ts 2:13). Em Rm 8:30, os crentes são “chamados” para serem conformados à imagem de Jesus Cristo. Jo 1:12–13 indica que a fé causa o novo nascimento, como demonstra Chafer.

A precedência da regeneração em relação à fé enfrenta três problemas principais, conforme apontado por Youngmark: (1) obscurece a distinção entre a regeneração e o chamado eficaz de Deus; (2) torna ineficaz o chamado eficaz; e (3) não há textos bíblicos explícitos que sustentem a precedência da regeneração.18 Portanto, uma resposta mais adequada é que a fé precede a regeneração e que o fundamento da fé é o ato de Deus por meio da obra capacitadora do Espírito Santo, que convence o descrente a exercer fé em Jesus Cristo.

Além disso, este autor entende que a obra de convencimento do Espírito Santo sobre o ser humano para que ele possa exercer fé é, em essência, o chamado eficaz de Deus. Isso está de acordo com a compreensão de Walvoord sobre o chamado eficaz, que ele define como a “obra instantânea de Deus que capacita a vontade humana e inclina o coração humano à fé em Cristo”.19

Notas

  1. Alguns podem questionar se há alguma ordenação dos acontecimentos da salvação. Diversas passagens bíblicas indicam diferentes aspectos da salvação (Jo 3:3; 1Jo 3:9; Jo 1:12; Ef 1:13; Rm 8:30), e a resposta de Murray, segundo a qual “Deus não é autor de confusão e, portanto, é autor de ordem” (John Murray, “Redemption, Accomplished and Applied”, 1997), resume a opinião da maioria dos teólogos.

  2. L. Berkhof, Systematic Theology (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans publishing co., 1938), 416.

  3. Geisler, Norman L. Chosen but Free: A Balanced View of God’s Sovereignty and Free Will. 3rd ed. Minneapolis, Minn.: Bethany House, 2010.

  4. Wright, N. T. Paul and the Faithfulness of God. Fortress Press edition. 1 online resource (2 volumes (xxvi, 605, xiii, 610-1658 pages)): illustrations vols. Christian Origins and the Question of God; Volume 4. Minneapolis: Fortress Press, 2013, 568; Grenz, Stanley J. Theology for the Community of God. Nashville, Tenn.: Broadman & Holman, 1994. 472.

  5. L. Berkhof, Systematic, 421.

  6. Arminius, Jacobus, and W. Stephen Gunter. Arminius and His Declaration of Sentiments: An Annotated Translation with Introduction and Theological Commentary. 1 online resource (xiii, 213 pages): illustrations vols. Waco, Tex.: Baylor University Press, 2012.

  7. Oden, Thomas C. John Wesley’s Teachings. John Wesley’s Teachings. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2014.

  8. Murray, John. Redemption Accomplished and Applied. 1 online resource (xi, 203 pages) vols. Grand Rapids, Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, 1955, 61

  9. https://www.presenttruthmag.com/archive/XXVII/27-3.htm. Ele faz essa afirmação argumentando que, em Jo 5:24, “mas passou da morte para a vida” está no tempo perfeito, significando “mas [já] passou da morte para a vida”.

  10. Charles Hodge, Systematic Theology, vol. 3 (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997), 41.

  11. Sproul, R. C. Chosen by God. Rev. and Updated. 1 online resource (187 pages) vols. Carol Stream, Ill.: Tyndale House Publishers, 2010. 79.

  12. Passagens como At 16:31, Rm 10:9, Rm 10:13 e 2Ts 2:13 ensinam claramente que a fé é um pré-requisito para a salvação.

  13. Snoeberger, Mark A. “THE LOGICAL PRIORITY OF REGENERATION TO SAVING FAITH IN A THEOLOGICAL ORDO SALUTIS,” n.d. Snoeberger contesta três linhas argumentativas em favor da precedência da fé, que incluem passagens que (1) apresentam a fé ou o arrependimento para a salvação, (2) apresentam a crença e o arrependimento para a vida e (3) apresentam o emprego da Palavra para a regeneração.

  14. Chafer, Lewis Sperry. Systematic Theology: Volume 3: Soteriology. Dallas, Tex.: Dallas Seminary Press, 1947, 210.

  15. Bruce A. Demarest, The Cross and Salvation: The Doctrine of Salvation, Foundations of Evangelical Theology (Wheaton, IL: Crossway Books, 1997), 265.

  16. Walvoord, John F. The Holy Spirit: A Comprehensive Study of the Person and Work of the Holy Spirit. Grand Rapids: Zondervan, 1991.

  17. Salvo indicação em contrário, todas as referências bíblicas são da English Standard Version (ESV); as citações bíblicas foram traduzidas para o português a partir dessa versão.

  18. Youngmark, William B. “Faith And Regeneration In The Ordo Salutis.” TH.M., Grace Theological Seminary, 1979. p. 38.

  19. Walvoord, John F. The Holy Spirit, 122.